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Ponto de paz

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  Nos caminhos de Alcântara Entre pedras e tropeços Ergo a face e te vejo Ouço vozes que aí cantam Encontro em ti acalanto De uma Mãe a me embalar Como as ondas do oceano E o vento a sussurrar "Fique em paz", diz o altar Dos meus medos me desarmo Quanto sinto a luz entrar Na plácida Igreja do Carmo. Renata Ribeiro 07/06/2023

uma vida mediada

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Tenho pensado sobre a minha relação com o celular e percebi que o problema vai muito além das redes sociais: a nossa vida toda tem sido mediada pela tecnologia, a ponto de afetar os nossos pensamentos e a nossa percepção das coisas ao redor. Até que ponto isso será inofensivo?  Tudo bem, é muito prático pagar as contas por um clique em vez de imprimir um boleto e ir até uma agência. Mas será que essa praticidade não nos faz perder a noção do dinheiro? Por vezes me pego pensando que sim. Não temos mais a real noção de quantia devido à falta de volume em nossas mãos, à falta de materialidade. E isso acontece com diversas outras coisas em nossa vida cotidiana: trocar mensagens com amigos em vez de ligar ou conversar pessoalmente, enviar e-mail em vez de se demorar em uma reunião, tirar foto de algo e postar em vez de mostrar para alguém que está ao lado, interagir com pessoas distantes ou até desconhecidas em vez de dar atenção a quem está presente. Nem estou falando das outras mil pe...

Minhas mãos cheiram a tempero

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         Diz o ditado que sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores. Nas mãos de quem é mãe, isso se torna bem concreto, pois passamos o dia com o aroma do tempero que usamos na comida da família exalando em nossos dedos. E tudo o que tocamos durante o dia carrega esse rastro de carinho, de uma oferenda de amor que foi feita logo cedo para que todos fossem nutridos.     Quem nos encontra na rua não sabe que nossas mãos cheiram a tempero; não sabem que em casa há um serzinho nos esperando, que depende de nós. Mas nós sabemos, sabemos que nossas mãos cheiram a alho, a cebola, a cuidado, a amor. Por isso, ganhamos mais força de correr atrás, lá fora, para que fiquemos ainda mais bem alimentados aqui dentro.      Que o nosso alimento de cada dia seja temperado com dedicação, zelo e boa vontade.

Casas de Alcântara

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Nas casas de Alcântara Repousam mistérios Que nem em séculos Se poderiam conhecer Que terá sido este prédio? Que terá visto essa ruína? A nossa alma rumina Imagina, em meio ao tédio Al qantarah, ponte cristalina Cântaro de fantasia Portal entre o ser e o não ser Inebriado de maresia Nas casas pequenas, multicoloridas Dançam fantasmas do passado Lágrimas, açoites e martírios Casa grande e senzala, lado a lado Ressoam tambores de assombros etéreos Caçoam as almas dos sonhos de eterno... ~Renata Ribeiro~

O nosso olhar "caducou"

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Uma amiga me mandou aquele vídeo que tem circulado na internet, do psicoterapeuta Leo Fraiman falando sobre como a nossa sociedade "caducou" e  de como as necessidades de afeto que estavam "gritando" sob a forma de depressão, ansiedade e suicídios estão vindo à tona agora, dentro de cada lar. A fala dele fez pensar não só a mim, mas a muita gente, dadas as expressões faciais das pessoas presentes no programa e o número de compartilhamentos.  Fez pensar sobre como as relações têm sido terceirizadas, protocoladas, deixadas para depois. Sobre como a nossa capacidade de conviver tem diminuído. Sobre como a tecnologia tem tomado o espaço do real. Nada disso é novidade, mas ganhou uma proporção tão grande e insuportável que fomos obrigados a ver "o elefante na sala". A ver que temos uma sala a ser preenchida por pessoas. Uma sala de estar . De estar presente com pessoas. Redundância? Ao que parece, a ênfase nos significados das palavras se tornou necessá...

Naquele jardim secreto

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Naquele jardim secreto Onde éramos só tu e eu Ali eu quisera encontrar-te Ali eu quisera ouvir-te Continuamente te esperava No silêncio das manhãs No romper da alva Eram esperanças vãs Pois ali não entravas Eu quisera tantas vezes Preencher-te de palavras Continha-me com dizeres Nos dias que mal rezavas Nas tempestades e tormentas Ali nunca te abrigavas Como se te esquecesses Por teus caminhos erravas E quando tudo restou vazio Eu ainda estava ali Foi quando raio luzidio Encontrou espaço em ti Pétalas foram, pouco a pouco, Se abrindo em teu coração, A todo o passado mudo e mouco, Dando ouvidos só à razão Bétulas, flores, tudo em torno Ajustava-se à criação E logo já eras jardim de novo Canal de luz e irradiação Assim tens sido jardim regado Meu rio de vida passa por ti A tua sede tens saciado E tu a outros sacias por mim Agora sabes que o jardim secreto Onde somos só tu e eu É onde habito-te por completo Onde já não te b...

a vida pede para abrandar

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As pessoas hoje querem fazer tudo. Casar, ter filhos, fazer graduação, mestrado, doutorado, trabalhar, cuidar do corpo, se divertir, ter uma religião, tudo ao mesmo tempo. Eu, de certa forma, me incluo. Mas estou percebendo que a vida pede para abrandar. A natureza não segue esse ritmo frenético da modernidade, nem nunca irá seguir. A semente cai em terra fértil e requer tempo e condições para brotar. A árvore não fica frondosa em um dia, nem em dois, mas em meses e anos. Os frutos não dão em todo o tempo, mas somente na estação propícia. Nós somos parte da natureza, por mais que a vida urbana nos faça crer que não. Um bebê não cai em nosso colo do nada; é fruto de um encontro com outra pessoa, de todo um desenvolvimento celular, depois corporal da mãe e do feto, até que, após cerca de nove meses de muita espera e sacrifício (principalmente na hora do parto), o neném chega a nossos braços. Este é um dos poucos momentos que a mulher moderna ainda aceita esperar, e só p...