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Meus olhos só podiam ser castanhos Pois sou eu toda tão castanha, Tão comum E ao mesmo tempo, tão estranha Que outra cor, ao me fitarem, Não poderiam encontrar Senão a mais comum de todas Porém profunda e forte Como um sulco na mais antiga árvore De tronco retorcido.

separação

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Há um quê de beleza na separação Não sei por que a surpresa A vida é partida e chegada Nisto reside a sua beleza Acaso há olhar mais lânguido Do que aquele que, ansioso, Vê o amado, indiferente, passar? Há, porventura, cena mais comovente Que uma moça na janela a chorar? Na ausência mora algo de delicado Uma súbita revelação do ser que habita O mais profundo da alma Este ser que tudo perscruta e tudo conhece Que já pressentia a partida Muito antes que acontecesse

Anamorfose - ou não

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Era uma tarde chuvosa e pouco importava que alguns - principalmente crianças, sempre elas! - enfrentassem a tempestade, ela não ia arredar pé daquela mercearia. Mas logo agora, essa chuva? Não podia haver outra hora para os céus chorarem a tragédia que veem lá de cima? Ana não viu outra saída senão desacelerar seus passos, seus pensamentos (sempre tão frenéticos) e simplesmente parar embaixo do toldo da venda. O tempo - o secreto inexprimível, que não se sabe quem inventou: Deus ou o homem - revelou então sua mistura pastosa com o espaço: eis a relatividade, diante dos seus olhos! Crianças correndo e gritando na rua, trovões, um caminhão parado, xampus, balinhas, ração para gato. Os olhos de Ana passeiam para lá e para cá; às vezes encontram outros olhos e logo fogem, sem encontrar ponto onde se fixar. Ana começa, então, a ler rótulos, para não sentir o agudo pulsar do tempo passando lento... Chegam algumas pessoas no mercado, também tentando se abrigar do temporal. Alguns têm...

Arrebol

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O crepúsculo é quase uma foto de Deus A palmeira bailando ao vento Os pássaros com seus voos elípticos As flores amarelas As nuvens multiformes Todo esse belo intocável Derrama uma paz na minha alma Que só sente quem vê com o coração. O riso de uma criança quebra o silêncio Para dar um recado do Pintor da cena: "Quando a gente virar anjo, A gente vai cantar pra Deus: 'vitória! vitória! vitória!' Né, tia?" S.L., 02 de março/2010

um pedido à estrela

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Já enjoei dos meus livros, de todas as minhas músicas, de todos os meus afazeres. Já enjoei desses meus dias pálidos, de emoções fracas, quase nulas ou, por vezes, frustrantes. Meu maior desejo agora se uma estrela o quisesse conceder ao contemplar, do céu, minha solidão seria um instante apenas um efêmero pulsar como o seu próprio brilho, na noite... Que ela me desse apenas esses segundos Sem consequências ou ilusões E me trouxesse de volta à minha paz! No entanto, inerte e rígido, O astro ouve as minhas súplicas E ri-se; bem sei a razão: "Tolo ser humano! Acaso pensa que subsistirá, ileso, a essa armadilha da emoção? Mil infortúnios podem passar esses seres, mas nunca aprendem; o que lhes domina é o coração!" //S.L., 09 fev. 2010

Grávido de pai

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Quando alguém se torna pai ou mãe, passa a ter uma nova sina: esperar. Espera pelo nascimento do filho, pelo seu primeiro choro, pelo abrir de seus olhos, pelos seus primeiros passos, por seu balbuciar "mamã" ou "papá"... O filho, por sua vez, sente apenas em parte o mundo à sua volta e as expectativas lançadas sobre ele antes mesmo de seu nascimento. Sua vida é receber: carinho, sons, calor, alimento...; enquanto a dos pais é sempre se desdobrar em mil. por puro amor, para dar tudo ao filho. Por essa razão, talvez, é que os filhos nunca se lembrem de ligar, enquanto os pais não dormem antes de receber uma única nóticia alentadora que seja. Deve ser também esse descompasso temporal de expectativas o motivo pelo qual o filho de conforma, após algum tempo, com a morte dos pais, enquanto um pai ou uma mãe jamais falam sem lágrimas nos olhos de um filho que partiu. Mas e se fosse o contrário? E se o filho é que tivesse sempre de esperar pelos pais, cuidar deles e guarda...

. música de Legião [e tão minha!]

Achei um 3x4 teu e não quis acreditar Que tinha sido há tanto tempo atrás Um exemplo de bondade e respeito Do que o verdadeiro amor é capaz. A minha escola não tem personagem A minha escola tem gente de verdade Alguém falou do fim do mundo, O fim do mundo já passou Vamos começar de novo: Um por todos, todos por um. O sistema é mau, mas minha turma é legal Viver é foda, morrer é difícil Te ver é uma necessidade Vamos fazer um filme. E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."? Sem essa de que: "Estou sozinho." Somos muito mais que isso Somos pingüim, somos golfinho Homem, sereia e beija-flor Leão, leoa e leão-marinho Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito Chega de opressão. Quero viver a minha vida em paz. Quero um milhão de amigos Quero irmãos e irmãs Deve de ser cisma minha Mas a única maneira ainda De imaginar a minha vida É vê-la como um musical dos anos trinta E no meio de uma depressão Te ver e ter beleza e fantasia. E hoje em dia, como é que s...