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Mostrando postagens com o rótulo prosa

uma vida mediada

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Tenho pensado sobre a minha relação com o celular e percebi que o problema vai muito além das redes sociais: a nossa vida toda tem sido mediada pela tecnologia, a ponto de afetar os nossos pensamentos e a nossa percepção das coisas ao redor. Até que ponto isso será inofensivo?  Tudo bem, é muito prático pagar as contas por um clique em vez de imprimir um boleto e ir até uma agência. Mas será que essa praticidade não nos faz perder a noção do dinheiro? Por vezes me pego pensando que sim. Não temos mais a real noção de quantia devido à falta de volume em nossas mãos, à falta de materialidade. E isso acontece com diversas outras coisas em nossa vida cotidiana: trocar mensagens com amigos em vez de ligar ou conversar pessoalmente, enviar e-mail em vez de se demorar em uma reunião, tirar foto de algo e postar em vez de mostrar para alguém que está ao lado, interagir com pessoas distantes ou até desconhecidas em vez de dar atenção a quem está presente. Nem estou falando das outras mil pe...

Minhas mãos cheiram a tempero

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         Diz o ditado que sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores. Nas mãos de quem é mãe, isso se torna bem concreto, pois passamos o dia com o aroma do tempero que usamos na comida da família exalando em nossos dedos. E tudo o que tocamos durante o dia carrega esse rastro de carinho, de uma oferenda de amor que foi feita logo cedo para que todos fossem nutridos.     Quem nos encontra na rua não sabe que nossas mãos cheiram a tempero; não sabem que em casa há um serzinho nos esperando, que depende de nós. Mas nós sabemos, sabemos que nossas mãos cheiram a alho, a cebola, a cuidado, a amor. Por isso, ganhamos mais força de correr atrás, lá fora, para que fiquemos ainda mais bem alimentados aqui dentro.      Que o nosso alimento de cada dia seja temperado com dedicação, zelo e boa vontade.

a vida pede para abrandar

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As pessoas hoje querem fazer tudo. Casar, ter filhos, fazer graduação, mestrado, doutorado, trabalhar, cuidar do corpo, se divertir, ter uma religião, tudo ao mesmo tempo. Eu, de certa forma, me incluo. Mas estou percebendo que a vida pede para abrandar. A natureza não segue esse ritmo frenético da modernidade, nem nunca irá seguir. A semente cai em terra fértil e requer tempo e condições para brotar. A árvore não fica frondosa em um dia, nem em dois, mas em meses e anos. Os frutos não dão em todo o tempo, mas somente na estação propícia. Nós somos parte da natureza, por mais que a vida urbana nos faça crer que não. Um bebê não cai em nosso colo do nada; é fruto de um encontro com outra pessoa, de todo um desenvolvimento celular, depois corporal da mãe e do feto, até que, após cerca de nove meses de muita espera e sacrifício (principalmente na hora do parto), o neném chega a nossos braços. Este é um dos poucos momentos que a mulher moderna ainda aceita esperar, e só p...

A magia dos livros

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Quando eu era pequena, vivia perdida no meio dos livros dos meus pais e primos. Antes mesmo de ser alfabetizada, eu já lia muito: explorava cada lombada, com suas letras brilhantes e de diferentes formatos; cada capa, preferindo, como é óbvio, as coloridas e cheias de desenhos... Descobria no desenho de cada letra um bichinho ou objeto, desenhando no vão de cada letra um coração. Outras vezes, simplesmente coloria-os, ou transformava-os em carinhas felizes. As letras eram meus brinquedos favoritos. Certo dia, ganhei um livro que vinha com uma fita cassete. Foi uma revolução! Agora, mesmo que ninguém pudesse ler a história para mim, eu podia ouvi-la, e melhor: acompanhar com os meus olhos cada vez que o som ia passando pelas palavras. Foi assim, associando as figuras, os sons e as letras daquelas histórias, que eu aprendi a ler (com a ajuda da escola, é claro!). Daí para frente, nunca abandonei minhas amigas letrinhas e fui descobrindo diversos mundos e almas irmãs da minha por...

Escreva

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Quando se escreve, às vezes é preciso abrir mão de tudo e simplesmente ordenar-se: - escreva! Comida no forno, trabalho por fazer, hora de dormir, o que seja; o maior pecado do escritor é resistir ao imperioso chamado da pena. Mas escrever sobre o quê, ele logo se pergunta. Parece que o ato de escrever sempre tem de ter um porquê e um sobre o quê, além dos execráveis e dolorosos como e com que fim (nos dois sentidos da palavra "fim"). O próprio impulso da escrita é tão voraz e inacessível que por vezes se torna impossível pausar-lhe, fazer-lhe qualquer dessas perguntas; o máximo que se consegue é seguir-lhe o rastro, no ritmo sempre atrasado do lápis sobre o papel, da luta retardada entre a coordenação da mão e a do pensamento. "Lutar com as palavras é a luta mais vã", já dizia o nosso nobre guerreiro (e vencedor) Carlos Drummond de Andrade. O guerreiro da palavra é talvez o menos nobre e mais ensanguentado, pois sua arma fere não só os outros, mas ele mesmo, enquan...

Anamorfose - ou não

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Era uma tarde chuvosa e pouco importava que alguns - principalmente crianças, sempre elas! - enfrentassem a tempestade, ela não ia arredar pé daquela mercearia. Mas logo agora, essa chuva? Não podia haver outra hora para os céus chorarem a tragédia que veem lá de cima? Ana não viu outra saída senão desacelerar seus passos, seus pensamentos (sempre tão frenéticos) e simplesmente parar embaixo do toldo da venda. O tempo - o secreto inexprimível, que não se sabe quem inventou: Deus ou o homem - revelou então sua mistura pastosa com o espaço: eis a relatividade, diante dos seus olhos! Crianças correndo e gritando na rua, trovões, um caminhão parado, xampus, balinhas, ração para gato. Os olhos de Ana passeiam para lá e para cá; às vezes encontram outros olhos e logo fogem, sem encontrar ponto onde se fixar. Ana começa, então, a ler rótulos, para não sentir o agudo pulsar do tempo passando lento... Chegam algumas pessoas no mercado, também tentando se abrigar do temporal. Alguns têm...

Grávido de pai

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Quando alguém se torna pai ou mãe, passa a ter uma nova sina: esperar. Espera pelo nascimento do filho, pelo seu primeiro choro, pelo abrir de seus olhos, pelos seus primeiros passos, por seu balbuciar "mamã" ou "papá"... O filho, por sua vez, sente apenas em parte o mundo à sua volta e as expectativas lançadas sobre ele antes mesmo de seu nascimento. Sua vida é receber: carinho, sons, calor, alimento...; enquanto a dos pais é sempre se desdobrar em mil. por puro amor, para dar tudo ao filho. Por essa razão, talvez, é que os filhos nunca se lembrem de ligar, enquanto os pais não dormem antes de receber uma única nóticia alentadora que seja. Deve ser também esse descompasso temporal de expectativas o motivo pelo qual o filho de conforma, após algum tempo, com a morte dos pais, enquanto um pai ou uma mãe jamais falam sem lágrimas nos olhos de um filho que partiu. Mas e se fosse o contrário? E se o filho é que tivesse sempre de esperar pelos pais, cuidar deles e guarda...

momento "prosaico" ; )

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. ele teve vontade de ligar... Discou os quatro primeiros números e, após refletir um momento, recolocou o telefone no gancho. "Em castelos de cartas é melhor não tocar, muito menos realizar movimentos bruscos quando deles se está muito perto", ele deve ter pensado. Ela também sabia o que isso significava. O que fazer com o que estava querendo dizer? E o que era, afinal? Nem ele, nem ela saberiam explicar. Talvez fosse apenas o impulso de voltar aos velhos hábitos... O telefone toca. - Alô? Não, você ligou errado. Não, não mora aqui. De nada. Algo toca suavemente a sua pele. É a cortina, que acaricia o solitário da noite e tenta aquecê-lo da corrente de ar frio que entra pela janela. Inútil: o solitário tem uma inclinação pela noite, pelo frio, pela melancolia. Aproxima-se, então, da fonte de vento, senta-se, abre os braços... O que ele está fazendo? Parece desequilibrado... Será que...? Se há realmente identificação entre os elementos da natureza e nós, seres humanos, o ve...

Ética

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Certo dia, estava eu perto do fim da fila do Restaurante Universitário, já me preparando psicologicamente para esperar bastante, quando meu desconhecido colega da frente, que depois descobri ser do curso de filosofia, interrompe meus pensamentos com o seguinte comentário: - É impressionante como esse pessoal fura a fila, não é? - Ah, é! Eles vão entrando, na maior “cara-de-pau”. - Imagina só que profissionais serão esses... Eu vou continuar fazendo a minha parte. - É verdade, mas se a pessoa que for passada para trás não reclamar, tudo vai continuar como está. Nós também temos que mudar a nossa atitude. - As pessoas já estão acostumadas. O errado, quando é conveniente, se torna certo, ou no mínimo menos errado. Meu colega tirou um livro da mochila e começou a lê-lo, dando aqueles sinais não-verbais, porém inconfundíveis, de fim de conversa. Eu fiz o mesmo, mas meus pensamentos continuavam no assunto. Eu me perguntava, então: “Se em um ambiente elitizado como uma universidade, onde se s...