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Mostrando postagens com o rótulo poesia

Casas de Alcântara

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Nas casas de Alcântara Repousam mistérios Que nem em séculos Se poderiam conhecer Que terá sido este prédio? Que terá visto essa ruína? A nossa alma rumina Imagina, em meio ao tédio Al qantarah, ponte cristalina Cântaro de fantasia Portal entre o ser e o não ser Inebriado de maresia Nas casas pequenas, multicoloridas Dançam fantasmas do passado Lágrimas, açoites e martírios Casa grande e senzala, lado a lado Ressoam tambores de assombros etéreos Caçoam as almas dos sonhos de eterno... ~Renata Ribeiro~

Naquele jardim secreto

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Naquele jardim secreto Onde éramos só tu e eu Ali eu quisera encontrar-te Ali eu quisera ouvir-te Continuamente te esperava No silêncio das manhãs No romper da alva Eram esperanças vãs Pois ali não entravas Eu quisera tantas vezes Preencher-te de palavras Continha-me com dizeres Nos dias que mal rezavas Nas tempestades e tormentas Ali nunca te abrigavas Como se te esquecesses Por teus caminhos erravas E quando tudo restou vazio Eu ainda estava ali Foi quando raio luzidio Encontrou espaço em ti Pétalas foram, pouco a pouco, Se abrindo em teu coração, A todo o passado mudo e mouco, Dando ouvidos só à razão Bétulas, flores, tudo em torno Ajustava-se à criação E logo já eras jardim de novo Canal de luz e irradiação Assim tens sido jardim regado Meu rio de vida passa por ti A tua sede tens saciado E tu a outros sacias por mim Agora sabes que o jardim secreto Onde somos só tu e eu É onde habito-te por completo Onde já não te b...

O maior risco da vida

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"O maior risco da vida, e mais perigoso, é amar; que morrer é acabar, e amor não tem saída. E pois penado, ainda que seja amado, vive qualquer amador; que fará o desamado e sendo desesperado de favor?" Gil Vicente, em O velho da horta
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Ah, quanta vez, na hora suave Em que me esqueço, Vejo passar um voo de ave E me entristeço! Por que é ligeiro, leve, certo No ar de amavio? Por que vai sob o céu aberto Sem um desvio? Por que ter asas simboliza A liberdade Que a vida nega e a alma precisa? Sei que me invade Um desejo, não de ser ave, Mas de poder Ter não sei quê do voo suave Dentro em meu ser. Fernando Pessoa ortônimo - Cancioneiro

A ordem das árvores não altera os pássaros

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GRAFIA 1 Água significa ave se a sílaba é uma pedra álgida sobre o equilíbrio dos olhos se as palavras são densas de sangue e despem objectos se o tamanho deste vento é um triângulo na água o tamanho da ave é um rio demorado onde as mãos derrubam arestas a palavra principia --- ♫♪ Naquele curió mora um pessegueiro Em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro Todo bem-te-vi carrega uma paineira Tem sempre um colibri que gosta de jatobá Beija-flor é casa de ipê Cada andorinha é lotada de pinheiro e o joão-de-barro adora o eucalipto A ordem das árvores não altera o passarinho Naquele pessegueiro mora um curió Em todo jasmineiro tem sempre um rouxinol Toda paineira carrega um bem-te-vi Tem sempre um jatobá que gosta de colibri Beija-flor é casa de ipê Cada pinheiro é lotado de andorinha e o joão-de-barro adora o eucalipto A ordem das árvores não altera o passarinho ♫♪ [Fiama Hasse Pais Brandão e Tulipa Ruiz, respectivamente]

Eu

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Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte, Sou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa tênue e esvaecida... Que o destino amargo, triste e forte Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida! Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver E que nunca na vida me encontrou! Florbela Espanca (admiro tanto que digitei quase todo de memória ^^~)

Os anos felizes

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Eu tlim ciências Tu tlim matemáticas Ele tlim trabalhos manuais Nós tlim recreio Vós tlim senhora Eles tlim castigo Pintura e poema do poeta surrealista português Mário Cesariny

Sorte Grande

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O amor tem qualquer coisa de sorte De acaso, felicidade súbita Pois é tão raro encontrá-lo Como tirar duas vezes A mesma face de um dado É que o amor é o Sublime E como tal, não pode ser vulgar Corriqueiro O amor é o encontro e o encontro é sagrado O amor é o desencontro e o desencontro é necessário O amor nos faz achar que tudo estava escrito Ou não Renata Ribeiro

4º Motivo da Rosa

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Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verás, só de cinza franzida, mortas intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe, o vento vai falando em mim. E por perder-me é que me vão lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. Cecília Meireles , in Mar Absoluto e outros poemas . ..:: Recomendo o estudo deste poema feito por Maria Luiza Ramos em RAMOS, M. L. O sentimento do eterno. In: ______. Fenomenologia da obra literária . 2. ed. Rio de Janeiro - São Paulo: Forense, 1972, p. 214-221. ::..

Queiras transformação

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- dedicado a @tiaracarvalho Queiras transformação. Sejas entusiasta da chama, Onde te escapa uma coisa que ostenta transformação de raízes. O espírito de criação, mestre da terra, No elã da figura, não ama nada como o ponto de mudança. O que se tranca na permanência, já está petrificado; Será que se imagina seguro no abrigo de uma decrepitude invisível? Espera: a maior dureza, à distância, adverte à dureza. Ai -: o martelo ausente se prepara! Aquele que jorra como fonte o reconhecimento o reconhece E guia em êxtase através da criação serena Que, muitas vezes, com o princípio se completa e começa com o fim. Todo espaço feliz é filho ou neto da separação, Que admiradores atravessam. E Dafne transformada em raízes, Como loureiro, quer que tu te transformes em vento. Rainer Maria Rilke , "12". "Sonetos a Orfeu"

Caixinha de música

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Se alguém quiser ouvir a minha alma Em uma música É só dar corda Em qualquer caixinha Os sons secos, cadenciados São a valsa da minha vida O suspense delicado A melancólica alegria Que, num átimo, acaba E dá voz ao silêncio... Realejo distante, vago Que conduz meu relicário Volteando no infinito Dando corda ao imaginário Eis, no cálculo das batidas, O mistério, o ciclo da vida - Que se rompe sem razão... Eu sou a bailarina do porta-joias Tateando em meu próprio mundo Na engrenagem do vazio Contudo, peço: feche a caixa Deixe-me adormecer e sonhar Com um mundo brilhante de joias Com valsinhas que nunca ouvi Até acordar Se alguém quiser ouvir a minha alma Em uma música ~Renata Ribeiro~

Ladainha

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Teu coração dentro do meu descansa, Teu coração, desde que lá entrou: E tem tão bom dormir essa criança, Deitou-se, ali caiu, ali ficou. Dorme, menino! dorme, dorme, dorme! O que te importa o que no Mundo vai? Ao acordares desse sono enorme Tu julgarás que se passou um ai. Dorme, criança! dorme, sossegada, Teus sonos brancos ainda por abrir: Depois, a Morte não te custa nada, Porque a ela habituaste-te a dormir... Dorme, meu Anjo! (a Noite é tão comprida!) Que doces sonhos tu não hás-de ter! Assim, com o hábito de os ter na Vida Continuarás depois de falecer... Dorme, meu filho! cheio de sossego, Esquece-te de tudo e até de mim. Depois... de olhos fechados, és um cego, Tu nada vês, meu filho! e antes assim. Dorme os teus sonhos, dorme e não mos digas, Dorme, filhinho! dorme, dorme, "oó"... Dorme, minha alma canta-te cantigas, Que ela é velhinha como a tua Avó! Nenhuma ama tem um pequenino Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou! E tem tão bom dormir esse menino... Deitou-se, ali...

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança: Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança: Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve) as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto, Que não se muda já como soía. Luís Vaz de Camões, em "Sonetos"

Leitura póstuma dos poetas sempre vivos

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Assombra-me um arrepio Ao ouvir dos versos a música, Neste sarau tardio, A soar sua beleza súbita Opera-se mágica tal Quando se encontram palavra e voz Que subleva-se calor irreal Entre os poetas lidos e nós Homenagem tão grande é esta leitura Que não podemos adivinhar-lhe a glória De revelar a mais perpétua das honras A qual dá-se, em secreto, nesta hora Pois não habita em um nome Pomposo, em ouro, num livro a luzir Mas apenas na alma de um homem Que, ao ler o poema, pôde sorrir...

Imagine

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Imagine que não há céu ou inferno nos aguardando Somente imagine, por um momento Que não há julgamento Porque o ser está sempre mudando... Imagine que a vida é linda Que é sempre assim, colorida Que as palavras são vivas Que se pode viver de amor e palavra Porque o ser está sempre mudando... Imagine que somos livres Que podemos dizer o que sentimos Que podemos sentir o que queremos Que somos donos do nosso coração Porque o ser está sempre mudando... Imagine, somente imagine O que você pode ser amanhã O que você pode ser hoje O que todos podíamos ser Porque o ser está sempre, sempre mudando...
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Tu não mereces que eu escreva Tanta coisa pensando em ti Nem mesmo ignorando-o por completo Não mereces que eu escreva para ti Outro destino para as palavras, porém, Não encontro eu, enfim, E acabo voltando ao mesmo tema: O eterno retorno do sem-fim. Vejo, contudo, para ledo meu, Que tu não és tu assim! Tu és tu, és ele, és muitos Que me amaram antes e depois de ti! És pessoa, objeto, lugar És primavera, outono e verão És presente, passado e futuro Veja só! És tu, o amor! São Luís, 17/05/10

separação

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Há um quê de beleza na separação Não sei por que a surpresa A vida é partida e chegada Nisto reside a sua beleza Acaso há olhar mais lânguido Do que aquele que, ansioso, Vê o amado, indiferente, passar? Há, porventura, cena mais comovente Que uma moça na janela a chorar? Na ausência mora algo de delicado Uma súbita revelação do ser que habita O mais profundo da alma Este ser que tudo perscruta e tudo conhece Que já pressentia a partida Muito antes que acontecesse

Arrebol

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O crepúsculo é quase uma foto de Deus A palmeira bailando ao vento Os pássaros com seus voos elípticos As flores amarelas As nuvens multiformes Todo esse belo intocável Derrama uma paz na minha alma Que só sente quem vê com o coração. O riso de uma criança quebra o silêncio Para dar um recado do Pintor da cena: "Quando a gente virar anjo, A gente vai cantar pra Deus: 'vitória! vitória! vitória!' Né, tia?" S.L., 02 de março/2010

um pedido à estrela

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Já enjoei dos meus livros, de todas as minhas músicas, de todos os meus afazeres. Já enjoei desses meus dias pálidos, de emoções fracas, quase nulas ou, por vezes, frustrantes. Meu maior desejo agora se uma estrela o quisesse conceder ao contemplar, do céu, minha solidão seria um instante apenas um efêmero pulsar como o seu próprio brilho, na noite... Que ela me desse apenas esses segundos Sem consequências ou ilusões E me trouxesse de volta à minha paz! No entanto, inerte e rígido, O astro ouve as minhas súplicas E ri-se; bem sei a razão: "Tolo ser humano! Acaso pensa que subsistirá, ileso, a essa armadilha da emoção? Mil infortúnios podem passar esses seres, mas nunca aprendem; o que lhes domina é o coração!" //S.L., 09 fev. 2010

a um amigo;

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Com magníficos disfarces Arrebatou-me a alma Ruborizou-me as faces Leu pra mim, enigmático Os claros sonhos, realces, Sóis entre os soltos cachos Magnânimo como um sábio Alongam-se os seus mistérios Guardando a fé singela, Nordestina; por etéreos Oclinhos, janelas do (seu) mundo.